Cinco Anos Depois, um conto de Drienna

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Cinco Anos Depois, um conto de Drienna

Mensagem por DiBastet em Ter Jan 10, 2017 8:29 pm

Cinco Anos Depois



 
Drienna adoraria dizer que o vento gelado incomodava sua pele, mas até isso lhe foi tirado.
 
Saía de dentro do portal feito para ela pela guilda de portais de Dalaran para enxergar uma paisagem gélida, mas bela, a qual aprendeu a considerar como um segundo lar: O ambiente gélido mas estonteante de Fiorde Uivante. O Forte Vildevar, antes um ponto de passagem de soldados da Aliança rumo ao Norte agora era pouco mais do que um posto avançado que servia de proteção para a vila de colonos que comerciavam com os nativos da Serra Gris.
 
Ergueu a capa preta para esconder as orelhas. Não sentia a picada do frio, mas tencionava parecer uma viajante comum nessas terras. Nada da armadura escarlate de guerra, nada de trazer Ashkandi como sua defesa. Usaria as roupas simples de viajante; uma pequena Cris seria sua defesa aparente.
 
Evitou negociar um pangaré; não queria chamar atenção a hora que o animal sentisse medo. Tomou discretamente o caminho para fora do forte, olhando para baixo e não chamando atenção. Já a algumas centenas de metros floresta adentro invocou seu fiel Corcel da Morte, puxou da bolsa um saquinho de pó mágico e o pulverizou sobre a montaria, o disfarçando de um cavalo normal. Olhou para a alta montanha que era seu destino, e dirigiu seu corcel em sua direção.
 
***
 
Já andava, pacificamente, a um bom tempo. O verde do chão era lentamente trocado pelo branco da neve de elevações altas, e a floresta virava um bosque esparso, de árvores teimosas. Sua mente se perdia, observando a paisagem que era como ela, bela, gélida, dura e triste. Foi então que se surpreendeu, quando três homens saíram de trás de árvores próximas a ela.
 
“Bandidos”, pensou, enquanto cirrava os olhos. Ela não se importava com a vida de outros, muito menos a de vermes, mas não queria uma luta. Não hoje, não nesse dia, para ela tão especial. Por enquanto, Drienna apenas os observava. Um humano, um orc e um anão, os três vestidos em peles de caçador, portando facas longas e simples. Pensou por um momento sobre como isso era incrível: Um grupo diverso de rufiões sanguinolentos, de povos estranhos uns aos outros e por vezes até inimigos, unidos na violência e no desejo de causar mal para outrem, uns ali por vontade própria, outros por que a vida os forçou a isso.
 
E então se tocou: Era notável como essa mesma descrição poderia ser aplicada aos cavaleiros da morte....
 
Os bandidos se aceleram a segurar a rédea do cavalo, que ficou quieto como a morte, sem se mover. “Calma lá gracinha. Ninguém passa por esse território sem pagar uma graninha pra gente”, disse o Orc, que parecia os liderar. O anão, mais esperto porém mais covarde, notou o brilho dos olhos azuis por baixo do capuz de Drienna, e balbuciou aos amigos que achava que ela era uma Cavaleira da Morte. Eles não concordaram, ou não se importaram.
 
Mas a banshee não queria uma briga. Não hoje. Não nesse dia. Soltou da cintura o saco de moedas, e o jogou, desinteressada, no peito do orc. Ele abriu seu largo sorriso ao ver as moedas de ouro dentro e lançou uma provocação do tipo de serem os “maiorais” do local e que ela deveria se lembrar disso, mas soltou as rédeas frente aos olhares preocupados do anão.
 
***
 
O sol já havia passado do zênite quando Drienna alcançou o cume. O caminho era largo e seguro o suficiente, mas longo, desgastante. Ou ainda, desgastante para os vivos. A essa altura os sons da floresta, dos pássaros e dos animais já havia se calado, e apenas o vento boreano gélido ousava quebrar o silêncio sagrado. Em outros dias o caminho seria tedioso para a Banshee, mas não hoje, sua mente tão repleta de lembranças.
 
O cume estava como a um ano atrás, como se intocado pelo tempo. O ar, para os que respiravam, era gélido e um pouco rarefeito; o silêncio, absoluto; a vista, monumental; a beleza, indescritível. Um sereno “altar” central era rodeado pelas lembranças de outros visitantes: Os restos de um buque de flores, um elmo partido, um símbolo sagrado da igreja da Luz, dentre alguns outros que estavam ali ano passado. Não pôde deixar de notar os novos ícones; uma garrafa de cerveja pandarenica, fechada e congelada, e uma presa quebrada de troll, lhe chamavam a atenção. Mas, acima de tudo, ali haviam armas. Pelo menos uma dúzia delas, cravadas no chão ou postas em volta do altar, uma promessa de deixar sua violência para trás no caso de uns; sua inocência no caso de outros. O pináculo era um lugar para se encontrar, afinal, e não era o papel de Drienna questionar ou julgar os motivos dos outros.
 
Dispensou o corcel da morte, que sumiu em um passe de mágica, e andou pelo pináculo, absorvendo memórias. “Mais um ano”, pensou. Lembrou-se de cinco anos atrás, nesse exato mesmo dia, quando a draenaia e o anão a trouxeram até aqui, desnorteada, sem objetivo, atormentada por espectros, mas apavorada demais com a concepção de morte final para seguir o caminho derradeiro escolhido por tantos outros de seus irmãos em morte.
 
Tentou focar em bons sentimentos, conquistas, momentos bons que tivesse passado, mas mesmo isso era negado a ela. Lembranças boas eram difíceis, tudo era temperado com angústia e desagrado. A busca pelo Eu logo se tornou uma frustrante batalha perdida, e apenas lembranças ruins, a dor de ferimentos, angústia da perda e ódio a preencheram até a borda. Aproximou-se de sua antiga lâmina rúnica original, tentando focar a mente nela para lembrar o momento de amizade em que foi trazida aqui, mas tão logo chegou perto a velha espada acendeu, suas runas fulgurando em azul flagelado, reconhecendo a dona e fazendo com que ela se lembrasse do que ela realmente era.
 
Ninguém era capaz de compreendê-la. Ela odiava isso. Os vivos olhavam para ela com uma mistura de tristeza, ódio, pena e outras sensações, mas nunca de forma “normal”. E ela odiava isso.
 
Seus parceiros magos de anos atrás, cada vez mais hábeis da magia e agora defendendo Azeroth contra a legião, estudavam sua magia rúnica inata mas “pegavam leve” perto dela, pois sabiam que agora era incapaz de conjurar mais do que feitiços herméticos simples. E ela odiava isso.
 
Outros cavaleiros da morte não a compreendiam; uns eram idiotas descerebrados que estavam contentes em guerrear nas Ilhas Partidas ou onde quer que a Horda erguesse sua cabeça feia; outros simplesmente davam de ombros e “viviam” suas não-vidas, sem pensar ou se importar com a perda de sua humanidade; nenhum outro mergulhava em sua natureza inumana, nas perdas, nas tristezas; alguns estudavam sua condição física como um tópico de necromancia, nenhum outro estudava sua condição como pessoas. E ela odiava isso.
 
“Por que não acabar com esse tormento logo?”, ouviu em sua mente, as vozes sombrias que nunca ficavam realmente quietas, exceto quando estivera em estupor no lago de sangue em Draenor, e seu ódio aumentou novamente. Em um acesso de ira, empurrou tudo que havia sobre o altar aos berros mais altos que podia, perfurado o silêncio sagrado. Chutou o sereno altar, conspurcando sua memória. E correu à borda, tencionando acabar com isso logo de uma vez. Seria um gesto rápido, alguns momentos de queda e silêncio, e logo o fim a alcançaria, rápido, indolor.
 
Mas tão logo chegou perto da borda, os instintos de sobrevivência vieram à superfície. Lembrou-se da morte. Lembrou-se de quando ela a sentiu. A morte não era o tranquilo abraço da eternidade; não era o descanso final; não era uma floresta idílica repleta de orelhudos e coelhos saída direto do Sonho Esmeralda. Não era nada disso. A morte era apenas o fim. O abandono. O fim de todas suas conquistas, interesses, sonhos; suas amizades, inimigos e desafios. Nada dessa vida significava nada. A morte era o fim da existência. O nada. E para ela, que como todo elfo noturno foi imortal um dia, isso era desesperador.
 
Caiu para trás, em desespero. Arrastou-se de costas pela neve, como uma pessoa que foge de um assassino. Seu coração estaria pulsante, caso ainda batesse. Finalmente deu de costas em uma pedra e parou, humilhada. Abraçou seus joelhos e fechou-se em uma bolinha, rosnando de raiva. Queria chorar, mas seu corpo não produzia lágrimas. Queria morrer, mas tinha medo demais para isso. Queria alguém para confortá-la, mas notou que gastara sua vida desprezando os outros, e agora era justo que fosse desprezada. Só conseguia sentir desespero, angústia, raiva. Só podia gritar, como uma criança.
 
***
 
Já era de noite e nevava quando o corcel da morte disfarçado desceu a montanha, carregando a derrotada e humilhada cavaleira. Se pudesse chorar, seus olhos estariam inchados. Se fosse capaz de sentir alegria, diria que toda ela sumiu. O cume, devidamente arrumado, espadas colocadas imaculadamente no lugar, ficara para trás. A elfa encontrara a pedra dos anos anteriores, e marcara mais um risco horizontal nela, o quinto da coluna. O quinto ano de sobrevida após a queda do Lich Rei. Ela fora fraca demais esse ano; teria de aguentar mais um ano de miséria e impondo miséria sobre os outros.
 
Não demorou demais para, já dentro da noite, encontrar a fogueira do acampamento dos bandidos. Escondida nas trevas por entre as árvores os observava comendo carne de cervo e bebendo canecas de cerveja. Estavam sóbrios, porém. Eram homens duros do norte, e não se deixariam embriagados em ambiente tão perigoso.
 
Andou, quieta, para o alcance da luz. O humano a notou, e arrancou um machado do tronco em que estava sentado, avisando seus comparsas. Os outros se ergueram e fitaram a elfa, que apesar de parecer indefesa tinha um ar estranho em si. “Esse território é nosso, magrela!”, o orc durão ergueu sua faca ameaçadoramente em direção a cavaleira. “Você foi esperta e garantiu sua vida da outra vez. Vai dizer que mudou de ideia?”.
 
Drienna voltou os olhos para cima, para o céu nublado. Algumas gotas pingavam, acertando seu rosto gélido. Repleta de memórias, perdeu-se em meio às gotas de chuva que molhavam seu rosto.
 
***
 
Drienna secava o rosto molhado com as costas das mãos. Ao seu lado, diversos cavaleiros da morte, sua maioria derrotados pelo poder da Esperança da Luz, estavam sob a misericórdia dos paladinos e seus aliados. Sentia o horror da existência livre pela primeira vez em não sabia quanto tempo. Tinha pânico ao notar que as lembranças de seu "cativeiro" eram turvas, mas acima disso tinha pânico de lembrar a sensação de morrer. De ser um espectro. Da dor de renascer. De ter sua vontade esmagada. Arrancou o elmo e olhou em volta, lágrimas sangrentas em seus olhos, para encarar diversas outras almas perdidas e tão desesperadas quanto ela.
 
***
 
Drienna secava o rosto molhado com as costas das mãos. Ao seu lado, Cavaleiros da Lâmina de Ébano, uma verdadeira horda de olhos flagelados e armadura de saronita, preparava-se para o ataque à Abóbada das Sombras. Sua armadura escarlate, que lhe ganhara seu apelido, brilhava refletindo as chamas do flagelo, conforme o verdadeiro inferno recaía sobre os servos do Lich Rei. Violência se aproximava, e Drienna a esperava, ansiosa.
 
***
 
Drienna secava o rosto molhado com as costas das mãos. Ao seu lado o Flagelo estava esmagado, mas homens e mulheres da Aliança e da Cruzada Argêntea estavam feridos, gritando pela dor dos ferimentos e da peste. Seu próprio corpo estava ferido, a dor era forte, mas ignorável. Ela podia ver a dranaia correndo de um lado para outro, usando de seus dons de Luz e bandagens mundanas para fechar os ferimentos. Era firme, dava ordens chamando ajuda, e os cavaleiros a obedeciam. Ela gritava para que Drienna ajudasse, mas a elfa não conseguia ter empatia pelos homens feridos. Estava em estupor. Desejava apenas vingança.
 
***
 
Drienna secava o rosto molhado com as costas das mãos. Ao seu lado, tanto cavaleiros da Cruzada Argêntea quanto soldados da Aliança e da Horda comemoravam aos pulos e gritos a derrota do Lich Rei. Enquanto tropas ficaram para trás para segurar os reforços, um grupo dos mais bem-sucedidos heróis do Torneio Argênteo seguiram com Tirion Fordring para o Trono Congelado. Não era função de Drienna querer se comparar a esses heróis; sua vingança seria completa independente de quem seria o algoz a dar o golpe final. Olhava em volta, confusa. Nenhum Cavaleiro da Morte urrava, ou comemorava. Todos sorviam a vitória com o ódio amargo no fundo da garganta de quem sente profundo despeito por seu inimigo. Muitos podiam não admitir, mas sentiam-se como Drienna: Estavam confusos, considerando o que seria deles agora.
 
***
 
Drienna secava o rosto molhado com as costas das mãos. Ao seu lado, Nára tinha uma mão em seu ombro. Virou-se para encará-la, tendo de erguer o olhar para fitá-la nos olhos. A sacerdotisa, ou anacoreta, como preferia ser chamada, sorria. “Você não precisa se prender em amargura sobre o que você foi”, dizia “Você pode começar de novo. A salvação, amiga, ela aguarda a todos nós”. O draenei caolho concordava com um gesto, e mesmo Travock, o anão desbocado, não ousava ir contra as palavras da draenaia, muito pelo contrário: Tinha o elmo às mãos e o olhar baixo, em respeito. Tentando acreditar nas palavras dela, Drienna sacou a espada, cujas runas fulguravam em azul perante o toque de sua dona, e a cravou no chão. Ela iria encarar uma eternidade de sofrimento, sempre as beiras da loucura. Mas tinha uma promessa: Não o faria sozinha.
 
***
 
Drienna secava o rosto molhado com as costas das mãos. O feiticeiro à sua frente hesitava, os mestres em volta também. Todos tinham olhar de angústia, pena, um tipo de vergonha alheia. Menos ela, que olhava com o mais puro ódio. Ordenou que o antigo companheiro alto elfo disparasse um feitiço mais uma vez, pois insistia que seria capaz de utilizar nem que a mais simplória barreira de defesa arcana. E falhou, sendo acertada por outro disparo de água. Por fim caiu de joelhos, humilhada em ter perdido sua magia, seus companheiros do Kirin Tor meneando cabeças. Sentia ondas de piedade e tristeza vindas deles. Não queria nem um, nem outro.
 
***
 
Drienna secava o rosto molhado com as costas das mãos. O herói a sua frente aproveitava para fazer o mesmo. Sem aviso partiu novamente para cima do cadete, suas lâminas sem fio se chocando em golpes, aparos e ripostas. Girou em esquiva a um golpe, e rolou por sobre as costas do cavaleiro curvado, terminando com um golpe circular que teria lhe fendido o ventre e exposto as tripas caso fosse uma arma verdadeira. Assim, sem fio, só fizera o cadete cair ao chão em dor. Levantara-se, limpando a sujeira do tabardo do Pacto de Prata, sua agilidade superior e armadura leve tendo superado mais um guerreiro pesado. A sua volta outros membros a saudavam, em sua maioria altos elfos mas também alguns membros de outras raças. Tinha orgulho, era a Fúria do Pacto de Prata afinal. O mundo podia ter quase acabado no Cataclismo, mas na segurança da voadora Dalaran, Drienna tinha uma vida, vizinhos, amigos até, e em seus inimigos uma válvula de escape. Orgulho. O único sentimento "bom" que era capaz de ter.
 
***
 
Drienna secava o rosto molhado com as costas das mãos. À sua volta havia sangue e corpos caídos, e gritos de batalha e magia ainda ecoavam pelas ruas conforme alguns Fendessol ainda ofereciam resistência ao expurgo de Jaina e do resto do Pacto. Olhava o corpo sem vida de uma feiticeira elfa passada à espada. Observava o terrível ferimento que deixara para trás ao comandar as artérias da distraída elfa a se romperem , explodindo para fora um jato de sangue que a Fúria consumira. E estava tão horrorizada quanto os outros Sin'Dorei que a observavam, rendidos por pavor. Jaina e o Pacto a enviaram, como uma arma, contra seus conterrâneos, vizinhos e até mesmo conhecidos. A ilusão de Dalaran unida de Drienna fora arrebentada, sua vida feita em pedaços novamente. O tabardo alvo e cerúleo estava manchado de sangue. Suas mãos estavam manchadas com o sangue dos inocentes.
 
***
 
Drienna secava o rosto molhado com as costas das mãos. À sua volta os tripulantes do navio, membros do Pacto de Prata parte da Ofensiva do Kirin Tor, aguardavam resolutos para atracar na ilha em que descansava a tumba do Rei Trovão. Mas ela olhava para longe, para o continente perdido de Pandaria, e pensava em seus conhecidos, e se lutavam lá pela Aliança. Como a maioria dos cavaleiros da morte que ainda viviam, não ousava pisar nessa Pandaria onde as emoções negativas despertam reflexos de um Deus Antigo. Raiva, Desespero, Dúvida, Medo, Ódio, Orgulho, Violência? Tudo o que cavaleiros da morte são, tudo o que sentem, a todos os momentos. Precisava esquecer o expurgo, mas lá não podia pisar, não podia proteger seus idiotas, pois sua mera presença causaria mais mal do que bem. Conforme atracavam e enfrentavam os Zandalari, pensara como isso também era verdade para sua vida. Sua própria presença era tóxica, fazia mal à todos.
 
***
 
Drienna secava o rosto molhado com as costas das mãos. Na selva abaixo notava os caçadores Olho Sangrento que se moviam silenciosamente. Para mérito deles ,os orcs andavam silenciosos como um sabre da noite, mas não podiam permanecer ocultos de um predador que fareja seu medo, que literalmente ouve seu sangue cantar dentro de suas veias. Desde que se perdera da Vanguarda da Aliança na fatídica investida suicida em que o Portal Negro fora destruido, tinha trazido horror ao coração dos orcs nas últimas semanas. Ou já seriam meses? Não sabia dizer. Caçar os Olhos Sangrentos e aprender sua magia de sangue tribal lhe mantiam afiada, mas não eram o suficiente para esquecer os horrores da existência. Fizera um som, propositalmente, convocando o único olho de um caçador sobre si. Saíra das sombras e caíra sobre o orc, espada cravando em seu peito e presas esmagando sua jugular, sorvendo-lhe o sangue ao mesmo tempo que não o permitia gritar por socorro.
 
***
 
Drienna secava o rosto molhado com as costas das mãos. Não queria partir. Não queria muito, na verdade. Sabia que queria ficar. ali era seu lar. Sua confortável casa. O lugar onde não sentia dor. Não sentia angústia. Medo. Desprezo. Ódio. Onde se sentia segura. E o que é tudo isso, se não lar? A sua frente o anti-paladino e a anacoreta tentavam erguê-la, afastar-lhe de seu lar. Estava passiva, triste, não queria ir embora. Tudo era bom. Calmo. Sem lembranças. Sem dor. Mas como uma bêbada, ou uma drogada, não estava em condições de consentir ou não. Vestida em trapos enlamaçados e coberta de sangue seco, só conseguia murmurar por piedade, para que não a levassem. Queriam levá-la da terra prometida, de seu local abençoado nas Agulhas de Arak, onde um deus sangrara e onde hoje sangue vertia da terra e até mesmo chovia, quente e pegajoso, do próprio céu. Ali não tinha que matar, que ferir, estava constantemente inebriada, em estupor. "Piedade", murmurava, olhando para trás enquanto era arrastada, seus lábios tremendo de tristeza, pois por baixo do estupor era capaz de lembrar da dor da existência. Do que logo voltaria...
 
***
 
Drienna secava o rosto molhado com as costas das mãos. Arrancou o capuz, revelando os olhos flagelados. Seus lábios tremiam de ódio e angústia, como alguém à beira do choro de raiva. “É... eu mudei de ideia.”
 
***
 
A noite já estava avançada enquanto Drienna descansava, de olhos fechados. Quase fora do alcance da luz da fogueira, dois corpos, um humano e um anão, mortos, despidos, esfolados de toda sua pele, decapitados e dessangrados, estavam pendurados pelos pés no galho de uma árvore. Eles tiveram o destino menos pior. O outro, que havia conseguido lhe cravar uma faca na coxa, sofrera mais. Do orc Drienna tinha nojo, e não bebeu de seu sangue; ela lhe cortou seus pés e mãos, cauterizou os ferimentos, o impalou -mas sem acertar o coração- e lhe cravou sobre a fogueira, deixando com que morresse devagar, em agonia, a gordura de sua pele derretendo antes que suas veias e coração não aguentasssem mais. Tivera tempo de sorver o sangue dos outros de um odre, como uma drogada, enquanto ouvia os gritos do Orc. E isso lhe agradou, por hora.
 
Agora, estava envergonhada consigo mesma, humilhada. Não por que desse a mínima para a vida de vermes, mas a mesma vergonha que uma garota em dieta sente ao se olhar no espelho após comer uma barra de chocolate gnômico; ou de um ex-alcoólatra ao acordar, sujo e vomitado, cercado de garrafas vazias. Envergonhada por causa da crueldade e gula excessivos que acabara de se permitir, de sua fraqueza em não se conter. Teria de encarar mais um ano disso. Teria de encarar mais um ano de horrores, de mortes, de precisar causar sofrimento para manter os espectros das terra dos mortos afastados e sua mente intacta, ou quão intacta alguém tão quebrada quanto ela pode ser. Teria de se manter desse lado da sanidade novamente, por mais um ano.
 
A capacidade de ver um lado positivo lhe foi tomada. A de sentir pena, remorso, também. Sua magia, sua vida, sua personalidade, sua sanidade. Tudo lhe foi tirado, e o que lhe sobrava era dormir no acampamento de suas vítimas enquanto a chuva caía sobre ela.
 
E Drienna gostaria de dizer que o vento gelado incomodava sua pele, mas até isso lhe foi tirado.


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Re: Cinco Anos Depois, um conto de Drienna

Mensagem por Rick Petrevil em Ter Jan 10, 2017 11:38 pm

Que saudades dos textos assim,

Prendi a respiração na primeira parte de ''drienna seca o rosto com a costa das mãos'' e só fui respirar no ultimo ponto final! 

Tadinha da elfa, e olha que eu tentei deixar ela mais feliz! Dei até presente de veu de inverno vestido de noel! Mas enfim, conto perfeito, saudade fórum com essas histórias. 

Já me sinto em casa de novo rs
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Rick Petrevil

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