Um Conto Salgado

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Um Conto Salgado

Mensagem por Sachafer em Ter Fev 23, 2016 12:51 am

O vento salgado do porto batia contra o peito nu do moleque de rua sentado num toco de árvore. Poucos metros longe dele estava ancorado um majestoso galeão de guerra. De proa a popa, armado de canhões e munido de homens ainda mais perigosos que suas próprias armas. Almas de água salgada e coração resseco.
                Para ele, o moleque, era interessante de se ver os homens carregando e descarregando os barcos. Ele precisava saber o que roubaria, onde e como.
                Desde cedo, ele aprendeu que a vida não era algo fácil de lidar, especialmente para um mendigo. O lugar onde nasceu também não ajudava muito.  Kul Tiras era um lugar onde bons corações tinham apenas duas opções: morrer ou mudar.
                As velas verde-douradas dos navios do porto estavam cada vez mais frequentes. Elas tomavam o espaço dos navios mercantes que eram obrigados a aguardar por dias para aportar.
                O por do sol era espetacular e não havia lugar que houvesse outro igual. Quando a luz minguante do astro-rei tocava o mar, ele se transformava num tapete de ouro infinito. E quando o sol finalmente desaparecia, o moleque sabia que essa seria a sua hora de brilhar.
                Sorrateiro como um gato, ele passava por despercebido em meio às caixas espalhadas pelo porto.
O pobre garoto tinha um bichinho de estimação incomum – um rato chamado “Pururuca”, devido à sua falta de pelos. Era um bicho engraçado, o rato careca.
                Durante o descarregamento, o garoto havia notado que na rede que juntava as caixas em um engradado, havia uma bandeja prateada que estava exposta. Mesmo que ela não fosse de prata, certamente valeria algo. Então ele tinha de surrupia-la.
                Era uma atitude arriscada. A tripulação do galeão de guerra estava numa taverna muito próxima ao estaleiro. Mas a fome falou mais alto...
                Com seus passos ágeis de ladrão, ele conseguiu afanar sua bandeja. E para o seu azar, uma garotinha passava na hora e viu o que ele havia feito.
                Abrindo toda a sua pequenina bocarra, ela conseguiu gritar tão alto que até mesmo a música da taverna foi interrompida.
                Rapidamente, ele tentou enganar a menina, para que ela acreditasse que alguém havia o mandado buscar a bandeja, mas nada adiantou.
                Assustada, a tripulação do galeão saiu da taverna para verificar que tragédia poderia ter feito a menina gritar daquela forma.
                - Ladrão! Ladrão! – gritou ela.
                O espanto deu lugar ao ódio nas feições dos marinheiros. Eles perseguiram o garoto e deram alguns murros nele. Pura covardia. Dois homens o seguravam enquanto outro o esmurrava e chutava.
                Nisso, chega o capitão do navio. Homem grisalho e imponente. Suas mãos tinham calos monstruosos e sua pele do roso era queimada por sol e sal. O chapéu combinava perfeitamente com seu rosto quadrado.
                Os marujos covardes largaram o garoto no chão. Sangue no nariz. Na boca. Hematomas por todo o corpo.
                Pururuca saiu em disparada do bolso do menino. Isso foi sua ruína. Um dos homens esmagou o ratinho com sua enorme e pesada bota. Ele ainda riu do moleque no chão, chutando o rato para perto dele.
                Toda a dor e angústia que o menino sentiu deram força para um impulso tolo e furioso. Ele levantou de forma insana, e gritando, investiu contra o algoz de seu amiguinho pelado. Ele tentou roubar a arma da cintura do homem e provavelmente mata-lo. E como era de se esperar, ele falhou. Um tapa com as costas da mão foi o suficiente para que o homem desbancasse toda sua investida  furiosa.
                - Eu vou arrancar a sua mão por isso, seu ladrãozinho de merda! – bradou o marujo, erguendo seu facão.
                - Marujo, alto! – disse o capitão.
                Ele se aproximou lentamente do garoto, que não conseguiu levantar os olhos até o homem.
                - Criança, qual seu nome? – perguntou o capitão.
                O garoto permaneceu em silêncio.
                Com um sonoro swing, ele desembainhou seu alfange. Grande e curvo, a lâmina era simplesmente espetacular. Seu acabamento em marfim era perfeito. Digno de seu posto.
                Ele colocou a espada apontada para o garoto.
                - Eu perguntei seu nome, moleque. Responda! – exigiu o capitão, com uma batida de sua bota no chão. Sua voz de comando foi forte o suficiente para arrancar uma resposta do garoto jogado no chão, que murmurou alto o suficiente para que o capitão ouvisse.
                - É Jaron, senhor. – disse ele.
                A tripulação comentava e ria do garoto. Estavam certos de que seu capitão o mataria após a próxima pergunta.
                - Porque roubou isto? – perguntou o Capitão, apontando seu alfange para a bandeja e depois voltando para a frente da cabeça do moleque.
                - Para... – foi interrompido.
                - Responda olhando nos meus olhos como um homem faria! – exigiu o Capitão.
                - Ele não é homem, haha! – provocou um dos marujos.
- É só um ladrãozinho! – completou outro marujo.
Juntando suas forças e limpando suas lágrimas e o sangue de seu rosto com as mãos, ele inclinou a cabeça e olhou profundamente nos olhos do Capitão. Os olhos do homem eram azuis como o mar.
- Para comer, senhor. – disse Jaron, com voz trêmula.
O capitão aproximou seu alfange do nariz de Jaron. Nessa altura, ele sabia que iria morrer. A tripulação sorria e balbuciava na expectativa de ver “justiça” ser feita.
E então, ele move seu alfange para cima.
                                Jaron fecha seus olhos.
                - Vê aquele barco, garoto? – disse o Capitão.
                Jaron abriu seus olhos.
                - Só não lhe arranco uma das mãos porque precisará das duas pra lustrar o assoalho do meu barco. Agora, vamos. Levante daí. Meus marujos vão te levar à bordo e te dar um esfregão. Vamos! Levante-se! – completou o Capitão.
                A mesma cara de espanto que Jaron fez poderia ser encontrada nos rostos dos marujos.
                - O-Obrigado, senhor. – disse Jaron, incrédulo.
                - Vá logo antes que eu mude de ideia e te corte o pescoço fora! E não é Senhor, é CAPITÃO! – disse o homem grisalho.
                E assim se sucedeu. Os marujos escoltaram o moleque até o navio e o vigiaram enquanto ele limpava o assoalho. Isso durou até o amanhecer, quando o assoalho estava limpo e tudo estava sendo empacotado para a viagem à Kalimdor.
                A frota do Almirante Daelin precisava de homens, de fato. Não de moleques. O combate dos orcs era assunto sério.

                O que Jaron, e nem ninguém  mais foi capaz de notar, foi a bondade de um coração que nem o mar salgado foi capaz de matar.
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Sachafer

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