A Chuva, A Tempestade e o Oblívio pt. 1

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A Chuva, A Tempestade e o Oblívio pt. 1

Mensagem por Sachafer em Sab Jan 23, 2016 5:54 pm

A Chuva

As gotas da incessante chuva caíam sobre o solo úmido e também dentro de algumas pocinhas de água, criando uma harmoniosa música de ambiente para a escura e requintada cidade de Guilnéas. As lamparinas de óleo queimavam e soltavam sobre si pequenas espirais de fumaça negra. O tempo era começo da tarde, onde o Sol começava a se esconder atrás das montanhas. 
Dentro dos muros da cidade estavam os guardas se aprontando, polindo elmos e limpando alguma eventual sujeira de seu tabardo. A vinda do Lorde Darkes Newhall sempre os deixava apreensivos.
Lorde Darkes era conhecido por sua lógica incomparável nos negócios. A matemática era sua arma no comércio. Em poucos anos ele conseguiu desfazer inumeráveis dívidas deixadas pelas gerações anteriores de sua família e já havia começado à gerar lucros tremendos.
Uma diligência de quatro cavalos se aproximava dos portões do Distrito Comercial.
O cocheiro se põe de pé em seu posto na diligência e tira a capa de chuva, revelando seu rosto.
- Lorde Newhall e sua família desejam adentrar Guilnéas para seus negócios! - Disse o cocheiro.
Rapidamente o vigilante sai de sua guarita e abre os portões da cidade, permitindo que a carruagem entre na cidade sem muita espera.
Segue então a diligência até uma loja de vinhos, posse de Lorde Newhall. Graças à ele, as terras mais altas dos morros, antes inférteis, agora eram uma enorme vinícola.
Quando a diligência para, o cocheiro rapidamente salta de seu posto e abre a porta para que seu patrão saia.
Uma bengala é a primeira coisa que pode ser vista saindo de dentro da diligência. Ela estava sendo segurada por uma luva branca de seda. Após isso, é visto um sapato muito bem lustrado e em seguida, o resto do lorde. Suas roupas finas deixavam bem explicito que sua família havia não só quitado todos os seus longos débitos, como também apontava que a estação era de frutos para os Newhall.
O Lorde foi acompanhado pela esposa, Elizabeth, que estava tão bem vestida quanto seu marido. Um vestido de uma deslumbrante seda amarela e um chapéu com véu. Outros adereços também ressaltavam sua beleza.
Por último, um jovem saiu da carruagem. Vestido em um terno adequado ao seu tamanho e idade, Anderson Newhall, o filho do Lorde carregava consigo seu livro e tomava muito cuidado para que a chuva não o molhasse.
O Lorde caminhava com imponência. Uma mão em sua chique bengala adornada com pedras e a outra era dada à esposa. Uma típica cena da nobreza guilneana.
Os três foram ao interior da loja, na parte dos fundos onde ficava a adega. Os empregados do Lorde pareciam estar apressados para exibir as contas do mês. Pareciam nervosos, e não era para menos. Lorde Darkes era sem dúvidas um dos senhores mais exigentes que poderia se encontrar naquelas bandas. Justo, porém exigente. Recompensava sucesso com dinheiro e fracasso com a rua.
O garoto preferiu não acompanhar o pai e ficou no balcão lendo seu livro. As portas da loja estavam fechadas, então ninguém perturbaria o momento de paz do garoto.
As aulas de esgrima, arquitetura, matemática, alquimia, arte e história consumiam basicamente todo o seu dia. Nem mesmo nos fins de semana ele tinha folga. Aparentemente, o Lorde era tão exigente com seu filho como com todos os outros.
De repente, Anderson sentiu a terra se mexer sobre seus pés. Algumas taças caíram e se partiram e inúmeros pedaços. Os reflexos tanto treinados nas aulas de esgrima foram o suficiente para salvar da queda uma garrafa de vinho. Tudo isso não durou mais que três segundos.
Um dos empregados do Lorde subiu e limpou toda a bagunça. Ninguém conseguiu explicar direito o que houve.
Cerca de duas horas depois, Lorde Darkes e a esposa Elizabeth retornam ao balcão da loja e sem muita demora, juntamente com Anderson, começam a caminha para a carruagem.
Ao sair da loja, se deparam com uma multidão de pessoas em volta de algo.
O garoto pediu para que sua mãe segurasse seu livro e saiu correndo, abrindo espaço em meio à multidão de curiosos.
A cena que viu foi perturbadoramente agradável aos seus olhos curiosos. Um guarda morto no chão. Destroçado. Uma perna estava à cerca de cinco metros dele, e seu braço estava preso na boca de um ser muito peculiar. A criatura peluda de aspecto lupino parecia um lobo antropomorfo. A maioria dos que estavam perto murmurava coisas sobre a criatura. Anderson sabia o que ele era. Um worgen.
Desde pequeno, Anderson foi uma traça de livros. Lia um volume atrás do outro. Sem pausas e sem restrições. Seu quarto era repleto de gravuras de criaturas bizarras que vinham das páginas dos tomos empoeirados que ele insistia em gastar muito dinheiro na compra. Escondido de seu pai, é claro.
- Pai! Pai! O senhor não sabe o que eu vi! Eu vi um worgen!! Eu disse que eram reais! - Dizia o menino empolgado ao grande Lorde.
- De novo com isso, Anderson? Eu já disse que não são. Isso é tudo baboseira de mago pra manter o povo afastado da Bastilha. - Disse o Lorde em desdém.
- Mas, pai, eu vi! Era real! Peludo! Matou o soldado! O bicho era enorme! - Insistiu, em um tom quase frustrado.
- Cocheiro, prepare a viagem. Anderson... Em casa nós falaremos daquela fantasia do clube de teatro que você acabou de ver. Aqui no meio da rua não quero ouvir mais uma palavra sobre magia. - Disse o Lorde.
Cabisbaixo, Anderson pega seu livro e senta-se dentro da dirigência pouco antes de partirem de volta pra casa. Elizabeth, durante o percurso, tentava consolar o filho, animando-o quanto ao estudo das criaturas mitológicas, mesmo com seu marido protestando contra.
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Após dois meses, o tempo era o mesmo: Chuva sem parar.
Era uma manhã de domingo. Anderson estava deitado em sua cama, preguiçoso e coberto por seus desenhos. Essa foi mais uma das noites que passou em claro lendo.
A voz calma de sua mãe faz com que seus olhos fiquem despertos de vez:
-Anderson, você já arrumou tudo, querido? Não podemos deixar--
Um terremoto interrompe Lady Newhall. Esse foi de magnitude elevada. 
A mala de Anderson explode!
Lady Elizabeth não sabia se ficava mais assustada com o terremoto ou pela mala de Anderson ter explodido.
- O que tinha dentro da sua mala? - Questiona a Anderson.
- Nada de importante, mãe! - Responde, suando frio.
Sem falar mais, ela vai até os restos calcinados da mala e encontra livros, pergaminhos, ampolas. Ou o que restou disso.
- O que já conversamos sobre magia? - Questiona à Anderson em tom inquistivo.
- "Nada de magia. Perca de tempo." - Repetem juntos.
- Agora arrume suas malas DE VERDADE e veja se não ponha nada que faça seu pai perder a cabeça. - Disse a Lady, levantando-se lentamente da beira de Anderson.
"Vou mostrar que magia não é inútil!", pensou o jovem.
Antes de sair do quarto de Anderson, Lady Elizabeth faz uma última pergunta.
- Seus pesadelos... AQUELES pesadelos...? Eles acabaram?
- Sim, mãe. Faz tempo que tive o último. - Responde Anderson.
Era mentira. Na noite anterior ele não havia conseguido dormir após ter um pesadelo horrível.
Em meio à suas malas ele escondeu tudo que pode da magia que veio aprendendo secretamente.
Darkes sabia que os worgens eram rais. Ele negava pois era ruim para os negócios, mas chegou um ponto em que tudo estava prestes à desmoronar. Andar por Guilneas não era mais seguro. Então, ele ordenou que fosse construído uma nau para que partissem da nação condenada.
Mais um mês se passou. Tudo estava pronto para a partida dos Newhall e seus empregados para uma terra distante, em Kalimdor. Tudo apontava que aquele lugar era "terra de ninguém", então o Lorde viu a oportunidade de se restabelecer lá.
Um terremoto muito forte pode ser sentido. Todos os que estavam no porto, incluindo os Newhall caíram. As malas se desprenderam e espalharam muitas roupas no chão. Tudo estava desmoronando!
- O fim do mundo... - Sussurrou Anderson. Ele havia lido em um livro que assim começaria o fim do mundo.
Todos, apressadamente, remontaram as malas e embarcaram. Ao longe, era possível ver a Muralha de Greymane partida.
Aquela terra estava mesmo condenada.
Agora, muitas dúvidas permeavam o coração de todos, mas em especial, de Anderson. Ele sabia que aquele era o fim do velho mundo. Do seu velho mundo. O que o assustava era justamente o que o aguardava no futuro...

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Sachafer

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