Um fragmento: "Um companheiro de longa data..."

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Um fragmento: "Um companheiro de longa data..."

Mensagem por Vinny Locatelli em Seg Jan 11, 2016 4:04 am

Era tarde da madrugada e o único som que tomava conta era o vento que invadia a pequena sala de Sachafer. A brisa que adentrava o ambiente fazia a chama da vela que iluminava a mesa tremular, tornando a leitura basicamente impossível.
O jovem erudito se levanta de sua cadeira forrada com tecido para fechar a janela e terminar com a incômoda visita do vento. A janela de madeira rangeu um pouco até ser encostada. Rapidamente, ele olhou para Luria que dormia na sala, não muito distante da janela. Ficou feliz pela janela não tê-la acordado. A bruxinha custava pegar no sono, então era melhor deixa-la repousar o máximo que pudesse.
                Enquanto se aproximava novamente de sua escrivaninha lotada de livros ele parou por um momento, exatamente no meio da sala e observou a sua volta. Para onde quer que olhasse, só conseguia ver livros. Dezenas... Centenas. Talvez chegasse a um milhar de livros. Coberto apenas por seu roupão leve, ele sentou no chão, sobre um tapete de tecido cheio de franjas.
                “- O que estou fazendo da minha vida? Quantos anos eu passei dentro de um lugar como esse?” - pensou consigo mesmo.
Cada vez que olhava para um canto do quarto, via uma estante coberta por diversos tomos e mais tomos. Sobre uma delas repousava sua pesquisa mais trabalhosa: O Tracágemus.
Esse aglomerado de gemas flutuante havia lhe comido um par de meses, cada dia de pesquisa. Dias a fio.
Fechando os olhos, uma antiga voz veio devagar e começou a compartilhar das incertezas de Sachafer.
                “- Eu sei o que você está pensando. É triste que uma criatura não consiga compreender a complexidade do todo.”, dizia a voz.
Antes recebida com protestos e ameaças, agora a voz se tornara uma companheira fiel e necessária para alguém tão solitário. Passar anos dentro de cubículos apenas na companhia de livros é de enlouquecer, a não ser que se tenha companhia.
                Sem mover os lábios e apenas pensando no que poderia ser dito, Sachafer responde: “-Tem mesmo pena de mim? Eu mereço pena? Bah. Eu merecia mais do que isso. Acumulei tanto conhecimento que poderia sair desse mundo, se quisesse.”.
A voz, calma como sempre, responde: “ – E porque não o faz? O que o prende? Sua fome é como a minha: Não pode ser saciada, apenas apaziguada. Este mundo tem pouco a ofertar.”.
Os pensamentos de Sachafer se tornam um tanto quanto rudes ao responder a voz: “- Se eu sei tanto, porque ainda possuo tão pouco? Porque eu ainda não sou um mago poderoso e renomado?”.
                “- Já lhe respondi isso uma dúzia de vezes, criança. Não há diferença entre saber muito e saber pouco. Poder é diferente de sabedoria. Você não pode ser aliado de todos. Vá e tome o que é seu... Consuma...”, dizia a voz ecoando na mente do garoto.
                “- Vá embora. Já não estou me sentindo bem, não preciso de um fantasma pra me por mais para baixo.”, respondeu depressivamente.
Finalmente abrindo os olhos, Sachafer notou que estava amanhecendo. A conversa que pareceu durar apenas minutos, durou horas.
Sachafer arregala os olhos e se levanta depressa. A vela já havia se apagado e Luria continuava a dormir. Talvez fosse o sono mais longo que ele havia visto ela ter.  Por ter passado tanto tempo sentado, suas costas doíam. Ele estava sonolento e suas olheiras eram algo horrível de se ver.
Meio grogue de sono, nem pensou direito e se deitou ao lado de Luria. Em menos de três segundos já havia apagado.
E os pesadelos voltaram a assombra-lo...


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